Insípida Cor


127 Horas (2010)

A cada segundo da rodagem de 127 horas” me despertava uma forte alusão aos diretores Sean Penn e Darren Aronofsky. Imaginei o primeiro realmente dando vida ao ambiente dentro do personagem, como fez com Christopher McCandless em Na Natureza Selvagem e pus na ideia Aronofsky pegando as ilusões de Aron e de fato as colocando a fundo como fez com Sara Goldfarb em Requiem para um Sonho. Porém, não despertou a vontade de ter outro diretor para nos mostrar o dom de infundir seu material com uma energia vibrante e de manter o interesse narrativo através da imagem como faz Danny Boyle. Uma pena oscilar como o deserto, tendo sua imagem a 50°C e sua subjetividade a 0°C.
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127 horas, então, parece ser a combinação perfeita de desafiar o material e os recursos de Boyle que traz uma história de vida com sua abordagem que abre leques a uma profundidade nunca infusa. Danny sempre foi um cineasta vistoso tendo sua própria tendência, mas sua narrativa sempre apresenta a dificuldade de chegar à complexidade que as cenas materialmente aparentam ter. O roteiro de 127 horas” sofre de problemas bem semelhantes ao de Quem quer ser um Milionário? O texto sempre apresenta alguns elementos de situações previsíveis que geram outras ainda mais previstas e que, mesmo que seja filmada de maneira extremamente original e ao estilo visceral da câmera de Boyle, acabam tendo uma subjetividade rasa e que raramente consegue atingir o pico da abstração das cenas.
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O Objeto de Boyle é Aron Ralston (James Franco), um aventureiro de 28 anos de idade que, em 2003, estava caminhando sozinho no Blue John Canyon em Utah, quando escorregou e, posteriormente, encontrou-se no fundo de uma fenda estreita com o seu braço direito preso entre uma pedra solta e as paredes do cânion. O fato é que a maioria das pessoas já conhece o método de fuga de Aron (Aqui um exemplo de Previsão que caminha para mais momentos previsíveis) antes de qualquer coisa. Além disso, O título do filme se refere à quantidade de tempo que ele passou naquela fenda, com pouca comida ou água, resistindo noites de frio e da crescente percepção de que ninguém estava vindo para resgatá-lo. E óbvio que essa percepção cresce para o espectador também, o que anula totalmente a seqüência “CGIzada” da chuva com efeito neutro e dispensável .
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As mesmas características podem ir para os personagens. O espectador não tem a possibilidade de apego nenhum à figura principal, que dirá as demais que passam diante da tela, sem espaço para construção e até mesmo sem coerência com o modo que um personagem se relaciona com o outro. Talvez por isso que a tentativa crucial de Aron para se libertar da pedra é somente visual e não sentimental, o que um equilíbrio entre ambos sensores poderia resultar num momento ainda mais profundo. Ainda assim, há uma tensão como nós esperávamos. Em seus raros momentos de horror, 127 Horas consegue nos prender nessa fenda com Aron e nos faz marcar os minutos e horas até chegar o inevitável. Para deixar o filme dinâmico são usadas as distrações visuais de Boyle pela maneira que ele transforma o sofrimento num estranho conto em que Aron sofre as ilusões nas chamas de sua própria mente que seu espírito transcende a vida e as pessoas com quem compartilhou momentos marcantes.
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Boyle também enfrenta o desafio principal do filme de como preencher as 127 horas, para a monotonia do aprisionamento não transformar o filme em um furo e o refúgio disso é o seu hábito visual, rejeitando a noção do tempo real em favor de uma implacável edição. Com a fotografia nas mãos de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle, às vezes, essa abordagem funciona perfeitamente, com as imagens distorcidas e ângulos inclinados desenhando a desidratação da mente de Aron. Em outros momentos, o filme se foca tanto nisso, que não estabelece fusão com a experiência emocional e espiritual de Aron. Outra curiosidade é como a trilha sonora distorce determinadas situações em algumas cenas, que às vezes esmaga a ação na tela. Em certos momentos de tensão a trilha não coincide com o ato e chegamos a conclusão que visualmente e sonoramente, 127 Horas muitas vezes fica em contradição consigo mesma, competindo por nossa atenção.
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As coisas só não pioram porque Boyle tem um ator magnífico chamado James Franco, cujo desempenho como Aron fornece o coração do filme e mantém seus batimentos. Franco transmite um rapaz convencido, confiante e por isso um tanto imprudente que tem sua confiança testada ao extremo quando ele é preso. E James consegue isso com uma facilidade incrivel, ainda mais convicto em situações de entusiasmo, já que o roteiro não proporciona um drama tão profundo como poderia ter, mas ainda assim a brincadeira com a câmera simulando uma entrevista beira a genialidade.
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O que nem chega perto de ser genial é o momento mais aguardado do filme que só serve para fechar a ausência de abstração que Danny Boyle não consegue passar desde seu ultimo trabalho. Sei que o texto que acabara de ler é cheio de contradições, entre elogios e desleixos de minha parte, mas a perfeição das imagens são incontestáveis, mas se o filme tivesse mais uns dez minutos já estaria me embrulhando o estômago, algo que, numa cena com uma premissa desconcertante não acontece (que é a ultima atitude para sobreviver de Aron). Pode cansar os olhos, mas nunca atingir nosso coração.
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Chego então a conceito de que o filme de Boyle mais uma vez apresenta um cinema muito superficial, num estilo próprio incompleto, que não atende todas as necessidades de uma boa obra e que, por mais que capriche em tantos quesítos ainda falha no roteiro, que pode não ser a alma de todos os filmes, mas aqui senti a necessidade de ter a minha transportada para dentro do Cânion e ficar preso na pedra junto ao personagem.


ロロロ (Filme bom )

17 Response to "Insípida Cor"

  1. Kamila says:

    Tô bem curiosa para assistir a este filme, até porque tenho lido excelentes comentários sobre a obra. Mas, tenho receio em relação a filmes claustrofóbicos e agoniantes. Porém, pretendo dar uma chance à '127 Horas'.

    KAMILA, acho que todo cinéfilo blogueiro que se prese acompanha o Oscar ou os filmes mais badalados. Só por isso que te indico esse filme, hehe! Beijos!

    leo says:

    Eu gostei bastante de uma certa parte do filme,chegando perto do final que acho que há o maior erro de 127 Horas,mas assim como você e a maioria acha,James Franco está ótimo como Aron.
    Abraços

    LEO, O final do filme realmente não atinge um grau de sentimentos elevado o que só prejudica a obra. E realmente Franco é o melhor do filme.

    Abraço!

    Ohh os spoiler aí galera! haha Brincadeira! Mas aguardo pelo filme, mesmo que não seja tudo isso. O trailer me pareceu interessante, traz algo diferente pra temática claustrofóbica aparentemente.

    Veremos!

    O filme não me satisfez, apesar da ótima interpretação do Franco - Danny Boyle quis literalmente tirar leite de pedra.

    VICTOR, digo o mesmo que eu disse pra Kamila. É bom acompanhar para estar por dentro.

    CLEBER, gostei da comparação e é por ai mesmo. hehe' Abraço!

    Curioso esta relação com o filme e Darren Aronofsky, até Sean Peann!

    Enfim, preciso conferir logo!

    Abs.
    Ótima e diferente crítica sobre o filme, que li até agora!

    Rodrigo

    RODRIGO, Valeu! E essas referências ficam compreensivas no decorrer do filme. Abraço!

    Belo texto, Alyson. Gostei dos seus argumentos para defender suas acusações ao filme, embora não os compartilhe. Tem muito a ver mesmo com a aproximação e, claro, implica o gosto pessoal. Eu, por exemplo, acho bacana essa linguagem mais moderna que Boyle emprega para se diferenciar, até pq interpreto isso como uma fuga ao sentimental, mas não significa que há momentos em que não fiquemos compadecidos de Franco - a cena do talk show é o exemplo master. Gosto da intenção de Boyle de se diferenciar, e acho que ele faz isso muito bem com aquele ritmo frenético e tal, que massacra algumas cenas mais emocionantes, sim, mas ainda o diretor é esperto em reservar algumas parcelas para isso.

    Fora isso, é um cinema mais empírico, incomodo. Ah, achei o filme insuportável, pura gastura. O depto técnico do filme casa perfeitamente com a proposta do diretor, então aí não tenho o que reclamar - apesar de reconhecer o excesso de flashbacks.

    aH, gostei do inicio do texto, a menção de "Réquiem" e Sean Penn hehe. E né? O que seria do filme sem um bom ator? Franco destrona, sem mais. Começo agora a dar crédito ao ator, brlhante em cena.

    Entendo perfeitamente quem desgostou, mas eu achei uma experiência interessante e bem realizada. Gosto do cinema de Boyle de antes e de hoje, acho q ele não decaiu como muito falam, mas talvez tenha ficado mais... hum... acessível. Ou não.


    ABRAÇO!

    Luana Rocha says:

    Olá, estou fazendo divulgação da ópera Carmen 3D que a Cinemark está trazendo com exclusividade para o Brasil em março e gostaria de enviar mais informações para o blog. É a primeira ópera filmada em 3D, numa montagem da Royal Opera House, de Londres, legendada em português. Caso tenha interesse, é só entrar em contato pelo email luanarocha[arroba]belemcom.com.br

    Weiner says:

    Não sei se sabe, mas adorei "Slumdog Millionaire", e nutri certa expectativa com esse novo filme do Boyle. Só que alguém deveria dizer ao Boyle que filmar uma desgraça num cânion de Utah é bem diferente de filmar uma desgraça na Índia. Aliás, a vida do Jamal (pelo menos a que Boyle pintou, num conto de fadas moderno)nem era tão desgraçada assim... :-)
    O cara reuniu toda a galera do último filme e o seu jeitinho habitual de fazer cinema acabou descombinando com tudo aqui. Esse filme deveria ter sido mais seco. Mais dramático. Mais aterroirizante. Imagina só, que situação desesperadora ficar preso e isolado! Mas Boyle - e como você bem cita, Rahman - não dão este tom à película. Ficou com cara de parque de diversões. Nada a ver com sofrimento, Aron parecia estar conformado e lidando bem com certas situações.
    Mas Franco soube lidar com tantas incongruências, transformando aquele personagem estranho num cara fascinante. Mereceu a indicação (e talvez mereça o prêmio sobre os demais) por lidar com tantas emoções distintas sem perder o brilho. Um grande ator!
    Abraço!

    Eu adorei o filme. Mas os maiores méritos são de James Franco, que carrega o filme nas costas e chama o espectador para estar ali ao lado dele, seja para ajudá-lo a se livrar do tormento, seja para servir de consolo nos momentos em que o psicológico pesa.

    Abraços

    ELTON, valeu! Também gosto dos seus argumentos aqui, embora também não
    compartilhe. Mas, geralmente as coisas são assim: Algumas novidades
    são novas demais e , com isso, não agrada a todos. Acho que Boyle
    esta mais acessível sim, pois seus filmes ultimamente está contendo
    histórias mais "fáceis" e dinâmicas, que acaba abrangendo um numero maior de
    espectadores. Abraço!

    WEINER, gostei bastante do teu comentário. Apenas não compartilho de que
    franco talvez mereça o prêmio. Acho que Colin está realmente a frente. Abraço!

    BRENNO, realmente Franco é um grande diferencial.Mas, não gostei do filme,
    mesmo assim. Abraço!

    "Estilo visceral" e "subjetividade rasa": resumiste muito bem o filme.

    Muito boa tua crítica! Tenho um blog de cinema tbm, mas estou só começando. O que me deixou com nariz torcido no filme foi saber que, não fosse a edição e os momentos de flashback bem utilizados, o filme seria bem chatinho. Edição foi o que manteve o bom ritmo do filme e deixou-o ''apreciável''. Franco faz bem ao conseguir levar o filme nas costas. Gostei do teu blog. Colocarei teu blog na minha lista de ''recomendados''. Se vc puder visitar o meu, agradeço!
    Abraços!

    ANDRÉ, Valeu cara! Abraço!

    RAISA, Boyle teria q colocar algo dinâmico para que tudo nao se tornasse monótono e usou a edição. Eu acharia melhor usar mais momentos de tensão na narrativa. Obrigado pelo elogio e ja estou visitando-te. Abraço!

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